O Crente Perde a Salvação?

O Crente Perde a Salvação?


Autor: Pastor Eudes Lopes Cavalcanti


Alguns grupos evangélicos ensinam que o crente perde a salvação, baseado na interpretação errônea de versículos isolados da Bíblia, tais como: Ap 3.5; Mt 10.22; Mt 25.30; Hb 6.4-6; Hb 10.29 e Sl 51.11. Tal ensino não está de acordo com o ensino geral das Santas Escrituras sobre o assunto. Considerando que a Bíblia não se contradiz, em virtude de ter sido verbal e plenariamente inspirada por Deus, conforme registros encontrados em 2 Tm 3.16 e 2 Pe 1.20, 21, é necessário que analisemos o assunto em seu escopo geral, conforme revelado na doutrina cristã.

A Bíblia é clara, em sua doutrina, em afirmar que a salvação do crente é eterna, não só no sentido de que o seu possuidor terá uma vida sem fim no porvir, mas também no sentido de que aquele que realmente a recebeu nunca mais a perderá. O Senhor Jesus afirmou categoricamente que “Todo o que o Pai me dá virá a mim; e o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora” Jo 6.37.

A salvação do crente é eterna porque, no momento que ela vem à vida de uma pessoa, acontecem alguns atos instantâneos da graça de Deus, atos esses irreversíveis, porque os dons e a vocação de Deus são sem arrependimento (Rm 11.29), cujas dimensões são eternas. Além disso, a salvação do crente não foi obra de um acaso, mas obedeceu a um plano previamente estabelecido por Deus, conforme o registro de Ef 1.4-12.

Vejamos algumas razões porque o crente não perde a salvação:

1º) O Crente foi escolhido (eleito) por Deus, para a salvação desde os tempos eternos

A Salvação do crente não foi obra do acaso, um caso fortuito, mas parte dum plano estabelecido por Deus antes que o mundo fosse mundo. Desde os tempos eternos, Deus, no Seu propósito e graça, escolheu, de maneira soberana, sem depender de fé prevista ou boas ações, um grupo de pessoas, que é a Sua Igreja, para nele mostrar o beneplácito de sua Graça aos vasos de misericórdia, os quais preparou de antemão. Essa gloriosa doutrina chamada de Predestinação, refutada por alguns, mas nunca contestada eficazmente, que dá a Deus toda a glória pela redenção do homem, desde a procura de Deus pelas ovelhas perdidas, passando pela convicção de pecado, pela concessão da fé salvadora, pela chamada eficaz, pela salvação efetiva, pela perseverança do crente até o estado final de glorificação, é uma das grandes razões porque o crente jamais perderá a salvação. Vejamos alguns textos que sustentam a eleição da graça: “Porque os que dantes conheceu, também os predestinou para serem conforme a imagem de seu filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos; e aos que predestinou, a estes também chamou; e aos que chamou a estes também justificou; e aos que justificou, a estes também glorificou”. Rm 8.29-30. “Como também nos elegeu (escolheu) nele antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis diante dele em amor” Ef 1.4. “E sabemos que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” Rm 8.28. “Mas nós devemos dar graças a Deus por vós, irmãos, porque Deus vos escolheu desde o princípio para a salvação, mediante a santificação do Espírito e fé na verdade e para isso vos chamou pelo Evangelho, para alcançardes a glória de nosso Senhor Jesus Cristo” 2 Ts 2.13, 14. “Que nos salvou, e chamou com uma santa vocação, não segundo as nossas obras, mas segundo o seu propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos eternos” 2 Tm 1.9. “Eleitos segundo a presciência de Deus Pai, na santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo...” 1 Pe 1.2. “Porque Deus não nos destinou para a ira, mas para alcançarmos a salvação por nosso Senhor Jesus Cristo” 1 Ts 5.9. “...e creram todos quantos haviam sido destinados para a vida eterna” At 13.48. “E continuou: Por isso vos disse que ninguém pode vir a mim, se pelo Pai lhe não for concedido” Jo 6.65. “Ninguém pode vir a mim se o Pai que me enviou não o trouxer...” Está escrito nos profetas: E serão todos ensinados por Deus. Portanto,todo aquele que do Pai ouviu e aprendeu vem a mim” Jo 6.44, 45. Ainda existe na Bíblia inúmeros textos que tratam do assunto da eleição do crente para a salvação, mas os citados são bastante para mostrar que a salvação para aquele que a recebe tem dimensão eterna e que jamais se perderá, uma vez que ela foi efetivamente concretizada.

2º) O Crente nasceu de Novo

No ato da conversão, uma nova vida foi gerada pelo Espírito Santo no interior do crente. A vida de Deus foi infundida na alma do homem pelo Espírito Santo, fazendo-a renascer e conseqüentemente transformando a pessoa em uma nova criatura. “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é: as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” 2 Co 5.17. Essa vida tem dimensão eterna, isto é, quem nasceu de novo, do Espírito Santo, do alto, jamais morrerá espiritualmente nem eternamente. “Mas a todos quantos O receberam, aos que crêem no Seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade do varão, mas de Deus” Jo 1.12, 13. Paulo escrevendo a Tito nos revela como essa regeneração se processou na vida do crente: “Não pelas obras de justiça que houvéssemos feito, mas, segundo a sua misericórdia, nos salvou pela lavagem da regeneração e da renovação do Espírito Santo, que abundantemente, ele derramou sobre nós por Jesus Cristo, nosso Salvador,” Tt 3.5,6. Sobre esse novo nascimento, essa nova vida, o Senhor Jesus na conversa que teve com o doutor da Lei, Nicodemos, disse: “Em verdade te digo que se alguém não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus, o que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito. ... O vento sopra onde quer, e ouves a sua voz; mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito” Jo 3.5-8. O apóstolo Pedro tratou do assunto numa de suas epístolas: “Pelos quais ele nos tem dado as suas preciosas e grandíssimas promessas, para que por elas vos torneis participantes da natureza divina...” 2 Pe 1.4. (Veja ainda 2 Co 3.18; Ef 4.24).

3º) O Crente foi adotado na Família de Deus

No ato da conversão, a pessoa, segundo o propósito eterno de Deus, é adotada como filho de Deus, pela fé no Senhor Jesus Cristo. Essa adoção é irrevogável e irretratável. Não há possibilidade do recuo de Deus porque Ele se interpôs com juramento, mesmo que um dos Seus filhos adotados não ande segundo o que Deus determinou em Sua santa Palavra. Uma vez filho, sempre e eternamente filho. O registro da adoção foi feito no cartório do Céu pelo próprio Deus. Vejamos os textos que tratam da adoção. “Mas a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder (direito) de serem feitos filhos de Deus; aos que crêem no Seu nome” Jo. 1.12. “Porque não recebestes o espírito de escravidão, para outra vez estardes em temor, mas recebestes o espírito de adoção de filhos, pelo qual clamamos Aba, Pai” Rm 8.15. “Porque todos vós os sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus”. Gl 3.26. “Para resgatar os que estavam debaixo da lei, a fim de recebermos a adoção de filhos. E porque sois filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito de Seu Filho, que clama: Aba, Pai” Gl 4.5,6. “E, se filhos, também herdeiros, herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo;...” Rm 8.17. “E nos predestinou para sermos filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de Sua vontade” Ef 1.5 (veja ainda Hb 12.5-8; 1 Jo 3.1, 2). Para os filhos que desobedecem a Palavra de Deus, o Pai Celestial tem um programa disciplinar, conforme Hb 12.5-11 que visa restaurar o filho a comunhão Consigo.

4º) O Crente foi selado e é habitado pelo Espírito Santo

No ato da salvação a pessoa é selada pelo Espírito Santo da Promessa, que passa a ser o penhor, isto é, a garantia daquela salvação dada por Deus. “No qual (Cristo) também vós, tendo ouvido a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, e tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa, o qual é o penhor da nossa herança, para redenção da possessão de Deus, para o louvor da sua glória” Ef 1.13, 14. Quando o crente falha o Espírito Santo, que veio habitar nele no ato de sua salvação, entristece-se, mas não se retira dele porque Ele, segundo o eterno propósito divino, é a garantia da eterna redenção daquela pessoa. “E não entristeçais o Espírito Santo de Deus, no qual fostes selados para o dia da redenção”. Ef. 4.30. No Antigo Testamento temos a informação de que o Espírito Santo afastou-se de pessoas que falharam, como no caso de Sansão e Saul, registrados em Juízes 16.20 e 1 Samuel 16.14, respectivamente, porque nesses casos Ele não habitava dentro da pessoa, e sim estava sobre elas. Sobre a presença do Espírito Santo dentro do crente, que é uma bênção exclusiva do plano redentor de Deus, é conveniente examinarmos os seguintes textos: “E porque sois filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito de Seu Filho, que clama Aba, Pai” Gl 4.6. “Ou não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós, proveniente de Deus, e que não sois de vós mesmos?” 1 Co 6.19 (veja ainda 1 Co 3.16; 2 Co 6.16). O Espírito Santo veio habitar para sempre no coração do crente, conforme a promessa do Senhor Jesus, registrada em João 14.16, 17: “E Eu rogarei ao Pai, e Ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre; O Espírito de verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece; mas vós o conhecereis, porque habita convosco, e estará em vós”. (veja ainda Tg 4.5; Rm 8.9, 23).

5º) O Crente foi Resgatado

Éramos escravos do pecado e filhos da ira, mas graças ao Evangelho, no momento em que cremos, fomos resgatados, isto é, houve uma transação, Jesus pagou o preço de nossa redenção. Fomos comprados, remidos por bom preço, o preço do sangue de Jesus. Deus nos arrebatou das garras do pecado e do maligno e nos transportou para o reino do Filho do Seu amor. Hoje, em Cristo, estamos assentados nas regiões celestiais. Esse resgate aconteceu só uma vez na vida do crente, isto é, no ato de sua conversão. “Cuidai, pois de vós mesmos e de todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para apascentardes a igreja de Deus, que Ele adquiriu (resgatou) com seu próprio sangue” At 20.28. “Sabendo que não foi com coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados da vossa vã maneira de viver, que por tradição recebestes dos vossos pais, mas com o precioso sangue, como de um cordeiro sem defeito e sem mancha, o sangue de Cristo” 1 Pe 1.18, 19. “Porque fostes comprados por bom preço; glorificai pois a Deus no vosso corpo” 1 Co 6.20. “E cantavam um cântico novo, dizendo: Digno és de tomar o livro, e de abrir os seus selos; porque foste morto, e com o teu sangue compraste para Deus homens de toda tribo, e língua, e povo e nação” Ap 5.9 (veja ainda Ef 1.7; 1 Tm 2.6; Rm 3.24).

6º) O Crente foi Justificado diante de Deus

“A justificação é o ato judicial de Deus, mediante o qual aquele que deposita sua confiança em Cristo é declarado justo aos Seus olhos, e livre de toda a culpa e punição”. “A justificação começa com o presente na vida do crente, e se estende em duas direções: o passado e o futuro, tratando do pecado e da culpa, de ambas, judicialmente, e estabelece o crente eternamente justo na presença de Deus”. O ato da justificação é imputado pelo próprio Deus ao crente, e a partir daquele ato Deus olha o crente por intermédio do Senhor Jesus Cristo, que é a nossa justiça. Por fraqueza o justo pode até cair em pecado, mas não perderá a posição de justo, outorgada por Deus. O próprio Deus, pelo Seu Espírito, encarregar-se-á de restabelecer a vida daquele que foi justificado. “Porque sete vezes cai o justo, e se levanta...” Pv 24.16. “Aos justos nasce luz nas trevas...” Sl 112.4. “... mas o Senhor sustém os justos” Sl 37.17. A bênção da justificação acompanhará o crente por toda a eternidade, independente de toda e qualquer falha que tenha cometido depois de sua conversão. Vejamos alguns textos que tratam da justificação do crente: “E de todas as coisas de que não pudestes ser justificados pela lei de Moisés, por Ele (Cristo) é justificado todo o que crê” At. 13.39. “Justificados, pois, pela fé, tenhamos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo” Rm 5.1. “Sendo justificados gratuitamente pela sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus” Rm 3.24. “Sabendo, contudo, que o homem não é justificado por obras da lei, mas sim, pela fé em Cristo Jesus, temos também crido em Cristo Jesus para sermos justificados pela fé em Cristo e não por obras da lei;...” Gl 2.16. A bênção da justificação é tão grande na vida de um crente que está revelado na Palavra: ”quem intentará acusação contra os escolhidos de Deus? É Deus quem os justifica” Rm 8.33. A Bíblia diz que Jesus é o justificador do crente. “Para demonstração da sua justiça neste tempo presente, para que ele seja justo e também justificador daquele que tem fé em Jesus” Rm 8.26.

7ª) A Salvação do Crente está assegurada em Cristo

Se a nossa salvação dependesse de nós certamente que não teríamos condição alguma de permanecer de posse dela, isso devido à natureza adâmica que ainda permanece no crente, e que é propensa ao pecado. A pessoa de bom senso, que tem a mente iluminada pelo Espírito Santo, sabe que a natureza adâmica o acompanhará até a morte. A Bíblia em Tiago 3.2 diz que “todos nós tropeçamos em muitas coisas”, e em 1 Jo 1.8 que “se dissermos que não temos pecado nenhum, enganamo-nos a nós mesmos, e a verdade não está em nós”. O apóstolo Paulo escrevendo aos Romanos, precisamente no capítulo 7, versículo 7 a 25, mostra a luta espiritual que existe em todo servo de Deus, devido ainda habitarmos num corpo mortal e propenso ao pecado. Diante do exposto, concluímos que jamais o homem pode assegurar a sua salvação em si mesmo, mas graças a Deus, a nossa salvação, ou melhor, a permanência da salvação em nós está assegurada exclusivamente em Cristo. Eis uma das grandes razões porque o crente não perde a salvação se, porventura, vier a cometer alguma falha. No momento que fomos a Cristo e O aceitamos como Único, Suficiente e Eterno Salvador, Ele nos acolheu, transformou a nossa vida, nos adotou em Sua família, nos deu do Seu Espírito, nos selou, nos resgatou, nos justificou e nos deu o dom da permanência ou da perseverança. É Cristo o grande arquiteto, executor e o sustentador de nossa redenção eterna. “Todo o que o Pai me dá virá a mim: e o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora” Jo 6.37. “E a vontade do Pai que me enviou é esta: que nenhum de todos aqueles que me deu se perca, mas que o ressuscite no último dia” Jo 6.39, “Manifestei o Teu nome aos homens que do mundo me deste; eram Teus, e Tu mos deste, para que sejam um, assim como nós. Estando eu com eles no mundo, guardava-os em Teu nome. Tenho guardado aqueles que me deste, e nenhum deles se perdeu, senão o filho da perdição, para que a Escritura se cumprisse” Jo 17.12. Eu não rogo somente por estes, mas também por aqueles que pela Tua palavra hão de crê em mim” Jo 17.19. O Senhor Jesus quando assunto ao Céu, mediante a Sua poderosa intercessão, continua a guardar os Seus. “Portanto, pode também salvar perfeitamente os que por Ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles” Hb 7.25. O Crente não pode perder a salvação porque Jesus é o fiador, isto é, aquele que garante eficazmente a transação feita entre o homem e Deus no ato da salvação. “De tanto melhor concerto Jesus foi feito fiador” Hb 7.22.

Amados, considerando as razões citadas, não temos dúvida nenhuma de que a nossa salvação é eterna, também no sentido de que o seu possuidor jamais a perderá, isso porque os “dons e a vocação de Deus são sem arrependimento”, isto é, irretratáveis” (Rm 11.29).

Agora, queridos, é conveniente lembrar que a segurança eterna não é nenhum cartão de autorização para que o crente faça o que quer, viva no pecado, muito pelo contrário, todo aquele que é efetivamente salvo procura viver uma vida de santidade. O apostolo João em sua primeira carta nos diz que aquele que é nascido de Deus não vive na prática do pecado, pois nele permanece a divina semente (1 Jo 3.9; 5.18).

“Graças a Deus pelo Seu dom inefável” 2 Co 9.12.